Sobre o sofrimento e a felicidade (Rubem Alves)

Acho que sabedoria é saber sofrer pelas razões certas.

Quem não sofre, quando há razões para isso, esta doente. Se uma pessoa querida morre e o coração não sangra, se um golpe duro da vida atinge quem se ama e os olhos não choram, se uma desgraça cai sobre o povo e a alma não fica triste, se o fogo consome as florestas e o corpo não queima também, é porque algo está errado com a gente. 
Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Só não sofrem, quando para isso há razões, aqueles que perderam a capacidade de amar. Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim a receita para não sofrer é muito simples: basta matar o amor. 
Mas que enorme seria a perda se isso acontecesse! Por que é o sofrimento que nos faz pensar. Pensamos ou para encontrar formas de eliminar o sofrimento quando isso é possível, ou para dar um sentido ao sofrimento, quando ele não pode ser evitado. O pensamento, assim, filho da dor, esta a serviço da alegria. Todas as mais belas conquistas do espírito humano, da poesia a ciência, nasceram assim. 
Mas há outros sofrimentos que não nascem de perdas reais. A felicidade pode ser destruída por uma doença dos que mora em nossos olhos.

O que é ilustrado por esta historieta que gosto de contar:

"um homem, felizardo, encontrou uma garrafa onde morava um gênio. libertado de sua prisão, o gênio lhe disse:

- tenho poder de torná-lo feliz. Atenderei a todos os seus pedidos, sem nenhum limite!

Tomado por uma onda de felicidade, o homem começou a imaginar todas aquelas coisas com que sempre sonhara e que nunca imaginara poder ter. Coisas que o tornariam feliz para sempre! E is seus olhos brilhavam ao contemplar os abjetos dos seus desejos: casas em lugares paradisíacos, viagens por países longínquos, banquetes de comidas exóticas, carros, iates, aviões, lindas mulheres que o amariam com amor terno e fiel, um corpo eternamente jovem, belo e potente... Ah! O que ele imaginava estava além de tudo o que sonhara, e agora seus olhos deslumbrados se deleitavam nos objetos que o tornariam feliz. Estava pronto para transformar seus sonhos em realidade e felicidade.

- vou dizer o que desejo – disse ele ao gênio.

- há apenas um pequeno detalhe, insignificante, que é preciso esclarecer – o gênio acrescentou.

- Pois diga! Replicou o homem.

- é que tudo que você tiver, seu pior inimigo terá em dobro... 
Ao ouvir essas palavras, uma perversa metamorfose. Aconteceu com os seus olhos. Seu deleite tranqüilo nos objetos do seu desejo se transformou num movimento aflito entre o que o gênio lhe daria – até aquele momento muito mais do que tudo que jamais sonhara, mais que o suficiente para a sua felicidade – e aquilo que seria dado ao seu pior inimigo. E, quando seus olhos o contemplavam e o que ele teria, como ele se sentia pobre e desgraçado! A visão da felicidade do outro estragara, para sempre a sua própria felicidade.

- Já sei o que quero pedir – disse finalmente ao gênio.

- pois faça o pedido – replicou o gênio.

- me fure um olho!”

“Essa historia me ajudou a compreender um obscuro verso de Fernando Pessoa, em que ele se refere à “inveja”, que dá movimento aos olhos” 
Inveja é precisamente isto: uma doença dos olhos, uma perturbação nos seus movimentos (do latim invidere), que faz com que eles contemplem as boas coisas que o outro tem e que, ao voltar de sua viagem pela abundancia do outro, destruam com desprezo todas as boas coisas que lhes são dadas. E eles ficam incapazes de ver com prazer aquilo que possuem. 
A inveja é uma das maiores forças por detrás dos nossos processos econômicos. É com a inveja que trabalham aqueles que imaginam os comerciais da TV. Tiveram o gênio da garrafa como seu professor... É a mulher mais bonita, o homem mais homem, o empresário mais bem sucedido, o automóvel mais caro, as ultimas maravilhas que o outro tem, e não nós. E toca a trabalhar para poder comprar. Uma corrida sem esperança de sucesso, porque o outro terá sempre em dobro. 
Os especialistas sabem que, se não tivermos inveja, se encontrarmos a felicidade nas coisas que possuímos, seremos mais felizes e, por isso, trabalharemos menos e compraremos menos. O que é mau para o progresso. Por isso, é preciso que nossos olhos fiquem doentes, que eles dancem a dança terrível que vai do que o outro tem e aquilo que temos. É preciso que sejamos infelizes. Quem tem inveja trabalha mais. 
E, no entanto, a vida esta cheia de razões gratuitas de felicidade. Mas a inveja nos torna cegos, e não a vemos onde se encontra. Como dizia o Mario Quintana:

Quantas vezes a gente, em busca de ventura, 
Procede tal e qual o avozinho infeliz 
Em vão, por toda parte, o óculo procura, 
Tendo-os na ponta do nariz!

A experiência da felicidade só é possível naqueles fugazes momentos em que os olhos ficam livres da maldição da inveja. É só então que eles param sua louca dança de comparação e descansam, deleitados, sobre as boas pequenas coisas que o cotidiano nos dá. Como naquele poema de Brecht em que ele faz um inventario das felicidades (no plural, por que no singular, não há)

A primeira olhada pela janela de manhã. 
O velho livro de novo encontrado 
Rostos entusiasmados 
A mudança das estações. 
Sorriso de criança 
O café 
O cão 
Tomar banho nadar 
Velha música 
Sapato confortável 
Perceber 
Música nova 
Escrever, plantar 
Viajar 
Cantar 
Ser amigo 
A presença de quem se ama.

Isso é sabedoria!